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A grande mentira

Num corrupio legislativo, acabam de ser aprovadas medidas “para garantir o direito de crianças e jovens à autodeterminação da identidade de género e a proteção das suas características sexuais”, quando a sua identidade ou expressão de género “não corresponde ao sexo atribuído à nascença”.

A expressão “sexo atribuído à nascença” dá-nos a dimensão da demência erigida em lei, como se a identidade feminina e masculina fosse um acaso e não correspondesse à verdade nuclear cromossómica XX ou XY presente em todas as células de cada pessoa e que a define de forma fundamental e não acidental.

Assim, essa primeira e nuclear base identitária, é, por decreto, pura e simplesmente, cancelada. A realidade não interessa, os factos não interessam, qualquer base de objetividade essencial à convivência humana é destruída.

Os ideólogos de género vão mais longe e indicam a autoperceção como base da identidade desde a infância. A autoperceção (como é possível!), esse emaranhado tão precário quanto incerto nas idades do crescimento cheio de alterações, em que a autoaceitação é também, por si só, sempre tão desafiada, a necessitar como nenhuma outra do apoio claro numa verdade essencial.

Mas o desvario não fica por aqui. Para alavancar a sua desconstrução, os ideólogos de género postulam conteúdos programados para o cancelamento da identidade com base biológica desde o pré-escolar, pagas pelo erário público (que é o dinheiro dos impostos de todas as famílias) e querendo atingir todos os nossos filhos que frequentam as escolas de Portugal.

A lei foi aprovada pela maioria (PS, Bloco, PAN e Livre), como se qualquer maioria pudesse legitimar a imoralidade. Mais extraordinário ainda, nos argumentos dos ideólogos do género cita-se proficuamente o “ódio” quando na verdade o ódio é o que os mesmos destilam em relação a tudo o que não se enquadre na sua desconstrução social, o nihilismo destruidor de toda a base de diferenciação.

Os ideólogos de género odeiam a cultura diversa que emerge de cada família com as suas próprias sínteses, o seu legado histórico, as suas formas de estar, falar e ver o mundo. Para os ideólogos de género há uma só forma de ver o mundo não admitindo o contraditório, anulando tudo o resto.

A ideologia de género é a base de sustentação de todos os cancelamentos: da ciência, da história, da literatura, de todas as formas de arte, que captam e descrevam a gloriosa diversidade da vida. E assim os ideólogos do cancelamento reescrevem os livros da Agatha Christie, escondem os da Enid Blyton, alteram os livros de história, alteram os postulados da produção científica, e até criticam o nariz de Bradley Cooper no papel de Bernstein, por poder ofender os judeus.

Deixamos de ser pessoas e passamos a categorias. Ficamos tomados por uma teia de cancelamento onde a suscetibilidade vence toda a realidade e também todo o humor, e é preciso medir tudo o que somos, dizemos e fazemos para evitar qualquer ofensa que está à espreita, vindo de um qualquer irritadiço e autocrático big brother.

Como qualquer totalitarismo, a ideologia de género e seus sequazes têm um enorme lápis encarnado e têm também um vasto enquadramento legislativo, que é o que costuma preceder a enorme ameaça repressiva.

Coitado do ocidente, ferido de morte naquilo que o costumava definir, a tolerância que vem do convívio e do diálogo com a diferença, suscitando sínteses ricas e multifacetadas para um mundo mais humano, incapaz de ser artesanalmente construído sem essa base de diferenciação.

O Papa Francisco deu-nos quatro princípios onde nos devemos segurar neste tempo de águas agitadas, e todos eles nos servem para discernirmos sobre este desafio ideológico do género: a realidade é superior à ideia, a unidade é superior ao conflito, o todo é superior à parte, o tempo é superior ao espaço.

Com eles, somos levados a resistir e a empreender, expedientes obrigatórios quando nos entram em casa, na nossa privacidade, e nos roubam os filhos, a história, a cultura e a família que escolhemos, tal como escolhemos.

O que temos pela frente não é pouco e não é adiável: a maravilhosa missão de dialogar e amar a diferença, de não nos entrincheirarmos seguindo uma agenda que não é a nossa, de rir, de fazer humor do grotesco, do burlesco e de nós mesmos, e dos outros também, como o último reduto de ser ocidental nos dias que correm, sem capitular até que cheguem dias melhores, dias de mais liberdade e dias de mais respeito pelas verdades essenciais da existência humana.

29/12/2023

Dina Ferreira

Fonte: https://minhodigital.pt/a-grande-mentira/